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O RITMO de rock’n’roll marca presença na programação do Festival de Cinema do Rio, que acontece até dia 4 de outubro. O destaque fica por conta de “I’m not there”, retrato cinematográfico do cantor Bob Dylan dirigido por Todd Haynes (de “Longe do paraíso” e “Velvet Goldmine”), um dos filmes mais badalados do último Festival de Veneza.

 

No longa-metragem, que estréia no festival nessa quinta-feira (27), seis atores encarnam diferentes facetas de Dylan. No elenco, estão Cate Blanchett, Christian Bale, Richard Gere, Heath Ledger e outros astros.

Outra atração que promete sessões lotadas é o documentário “Kurt Cobain: retrato de uma ausência”, de AJ Schnack, que desembarca no Festival do Rio dia 2 de outubro. O filme é o resultado de 25 horas de entrevistas inéditas com o líder do Nirvana, morto em 1994.

 

No depoimento, originalmente comandado pelo crítico de música Michael Azerrad para o livro “Come as you are: the story of Nirvana”, Cobain revela bastidores do grupo e detalhes de sua vida pessoal que podem ter motivado seu suicídio.

Outro ídolo do rock que ganha homenagem póstuma no Festival do Rio é Ian Curtis, vocalista da lendária banda inglesa Joy Division. Sucesso em Cannes, o filme “Controle, a história de Ian Curtis”, de Anton Corbijn, ganha sessões no evento a partir de domingo (30). Entretanto, os ingressos antecipados para o longa-metragem já estão esgotados.

Amanhã, sexta-feira (28), é a vez dos fãs do Queen lotarem o cinema Odeon BR para conferir “A verdadeira história de Freddie Mercury”, documentário de Rudi Dolezal. Com filmagens em Zanzibar, EUA, Inglaterra, Suíça e Alemanha, o filme revela faces pouco conhecidas do líder da banda, morto em 1991 vítima de Aids.

Mas o rock também ganha espaço entre os longas de ficção do Festival do Rio. Em “Elvis Pélvis”, dirigido por Kevin Aduaka, um garoto de dez anos chamado Elvis vive sob a tirania do pai, que tenta fazer do filho uma cópia do ídolo Elvis Presley. Porém, o menino gosta mesmo é de Jimi Hendrix.

 

RADICADA nos EUA desde os anos 80 e três vezes indicada ao Grammy de melhor cantora de jazz, a paulista Luciana Souza reitera excelência artística com o CD The new bossa nova (Verve/Universal), no qual relê hits de Leonard Cohen, Sting, James Taylor (presente no dueto Never die young), Joni Mitchell, Steely Dan, Elliott Smith e Brian Wilson, entre outros. Muita gente bacana já tentou injetar bossa em hits mundiais e muitos se deram mal, mas Luciana Souza vence o desafio com bom gosto e acento jazzy. O repertório inclui também a inédita You and the girl, parceria da cantora com o produtor Larry Klein, e Waters of March, de Tom Jobim. 

 

ARETHA Franklin, a rainha do soul, edita CD de raridades, dia 16 de outubro, com 35 canções gravadas entre 1966-1973. Entre elas, um dueto com Ray Charles em homenagem a Duke Ellington.

 

ZECA Pagodinho Raridades (Som Livre) compila encontros do pagodeiro que estavam dispersos em vários discos e projetos especiais. O repertório traz interpretações solo do grande sambista e duetos com artistas como Caetano Veloso (Com que roupa), Jovelina Pérola Negra (Luz do repente/Feirinha da Pavuna/Bagaço da laranja), Cauby Peixoto (Festa da vida), Nana Caymmi (Vou ver Juliana), Simone (Sem compromisso) e Beth Carvalho (Segure tudo/A flor e o samba/No pagode do Vavá).

 

OCARINA, quarteto baiano influenciado por bandas neopunk ou de hardcore melódico como Offspring, Pennywise e Dead Fish, gravou um EP sob produção de Jera Cravo. Quatro canções podem ser conferidas em www.myspace.com/ocarinarock. Destaque para O fim da história e Fechei os olhos, que tem melodia maneira e letra emo(tiva).

 

AKON, um dos nomes quentes do R&B/hip hop americano atual, se apresenta pela primeira vez no Brasil, em outubro, no Rio (dia 12), Floripa (13), Porto Alegre (14) e São Paulo (16).

 

PRESIDIDA pelo cantor e compositor Alaor Macedo, a Lira Imperial do Samba nasceu em 2006 com o objetivo de incentivar o renascimento das escolas de samba de Salvador, agremiações que desapareceram do Carnaval da cidade a partir dos anos 80 e, com elas, o gênero samba-exaltação (tão importante no Rio). A missão é dificílima, mas o primeiro CD oriundo da idéia, o independente Abram alas pro samba, confirma a máxima de que quem é rei no samba nunca perde a majestade. Com produção de Robson Nonato, o CD homenageia a história de escolas como Juventude do Garcia, Unidos do Politeama (com o belo samba Tum tum tum, interpretado por Elize) e Filhos do Tororó. Resistência com qualidade, sim senhor.

 

HAIRSPRAY, bom musical em exibição nos cinemas, tem a sua trilha sonora (sucesso de vendas nos EUA) lançada no Brasil pela Universal. Sem as imagens, porém, a trilha perde a sua graça pop.

 

MARISA Monte atendeu ao apelo do Grupo Cultural AfroReggae e, dia 30, às 19h, leva o ótimo show da turnê Universo particular para a comunidade da favela Complexo do Alemão, no Rio, dentro do projeto Conexões Urbanas (patrocinado pela TIM).

 

JULIANA Amaral, cantora paulista, faz bonito em seu segundo CD, Juliana samba (Lua Music). Produzida por Moacyr Luz e na companhia de feras cariocas como Mauro Diniz (cavaquinho) e Paulo 7 Cordas (autor do arranjos), Juliana – que também é atriz – mostra desenvoltura e técnica vocal na releitura de temas de Paulinho da Viola & Elton Medeiros (Vida), Heitor dos Prazeres (Tudo acabado), Cartola (Meu amor já foi embora) e Marcelo Camelo (Samba a dois), além de interpretar inéditas de Luiz Carlos da Vila (Então, leva) e Wanderley Monteiro (Vestida de azul), entre outros.



Escrito por simaopessoa às 15h01
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DECIFRANDO O DNA DA NEW WAVE

 

Uma tarde qualquer da primavera de 1984 - sem mais, nem menos - as FMs brasileiras foram tomadas por “Legal Tender” dos B-52’s e “Wonderful World” do Devo. Pronto! A “niu uêive” tinha invadido o Brasil...

 

Considerando-se que o verdadeiro vigor criativo desse saco de gatos pode ser dado como morto em uma tarde qualquer entre 81 e 82, a tal new wave não só chegou bem atrasada como permaneceu até hoje distorcida, pesada, vista e avaliada como caricatura deste punhado de representantes - Devo, B-52’s, a cara de Nina Hagen estampada em camisetas...

 

Para jogar alguma luz sobre o assunto, suas origens, paralelismos com o punk e ramificações pós-punk, estou postando alguns textos básicos, que podem chocar os mais desavisados.

 

Uma das revelações que podem parecer surpreendentes é que a new wave não representou nenhuma ruptura - foi muito mais uma sobrevivência de um veio aberto pelos Stooges e pelo Velvet Underground, levada por bandas de Nova York como o Television e os New York Dolls pouco após a dissolução dos grupos citados.

 

Depois que um tal de Malcolm MacLaren voltou a Londres, desistindo de empresariar os Dolls, o veio explodiu em vários selos independentes e o resto é uma longa história, que vamos recapitular rapidamente.

 

Como até as pedras já sabem, no pop pouco se cria. Tudo se copia e todos adoram reciclagens. Não pense que os precursores da quarta geração do rock nunca ouviram nada. Embora revolucionários, foram precedidos por um amontoado de sonoridades que, em meio às pompas do rock progressivo, ficaram perdidas, esquecidas no vazio dos anos 70.

 

Mas a história é tão traiçoeira que é capaz de nos carregar aos primórdios dos anos 60, onde estão localizadas as garage bands (os primeiros sintomas do punk), que nada mais eram do que bandinhas de fundo de quintal, compostas por adolescentes rebeldes, viciados em guitarras distorcidas, baterias descompassadas e gritos incendiários, que eram usados como pedras contra qualquer possibilidade de bons costumes.

 

Esta rudimentar e radical concepção é recuperada por outros desajustados em fins dos anos 60. Sob essa influência surgem o MC5 e os Stooges, que recriaram de forma cáustica esse contexto, porém um pouco antes (66), já havia o Velvet Underground, exímio laboratório musical, que transtornou a vertente psicodélica ao lado de nuances de art rock, beat ballads e chamas idiossincráticas. Ainda nos anos 60, não podem ser esquecidas as estrepolias anarcoexperimentais de Captam Beefheart e o rock mágico de Alex Chilton e seu Big Star.

 

No início dos anos 70, a grande menção vai para os mitológicos New York Dolls, os mestres do trash, que, num misto de garage e glitter rock, desafinaram o coro dos contentes.

 

Em fins de 74, todos os detalhes mencionados vão colorir alguns outros notáveis cérebros americanos, que começam a destoar da ressaca progressiva e das pretensões do jazz rock. É a vez de Patti Smith, a dionisíaca poetisa junky que experimentou mesclar os restos da alma de Rimbaud e Jean Genet com a arquitetura de trash rock, e de Jonathan Richman, o beat apaixonado por Lou Reed, que, com os Modern Lovers, agrupou elementos de country e baladas hipnóticas.

 

Logo em seguida, os Ramones recuperam a estirpe das garage bands, travestidas de punk com maquiagens à base de power pop e bubble gum. Ainda em 75, debutava o desarticulador Talking Heads, um dos grupos americanos mais interessantes, abertos a experimentações, incluindo desde o funk até peculiaridades do pop ortodoxo.

 

Mas os dois maiores grupos desta fase se chamavam Blondie e Television. O primeiro, centrado na indomável beleza de Debbie Harry, a Marilyn mais gostosa do pop, recuperou, em uma nova linguagem, oníricas paisagens do rock’n’roll e do rock ballad, criando atmosferas de profundo romantismo e excitação. O segundo, grupo à cargo das guitarras de Tom Verlaine e Richard Lloyd, recriou as diretrizes do british boom e da pré-psicodelia americana.

 

Excetuando Jonathan Richman (Boston), todos os citados são provenientes de New York e, finalizando, não podemos omitir outros nomes importantes vindos de outras cidades.

 

Assim, temos o punk metal pop das deliciosas Runnaways, o neocountry-rock de Tom Petty (inovando as matrizes dylanescas), o mainstream-rock do Southside Johnny & the Ashbury Jukes e daquele garotão, que ainda hoje faz muito sucesso, o então semi-desconhecido Bruce Springsteen.

 

Em 76, incrementando esta multicolorida panorâmica, outros nomes vão sendo incorporados no New York Sound. Embora fossem mais outsiders do que a turma da primeira safra, no nível qualitativo, não deixavam nada a desejar. Uma turba voltada essencialmente para os moldes básicos do rock'n'roll, sem quaisquer pretensões ou traços refinados.

 

Por um lado, o revivalismo ipsis litteris dos anos 60, comandado pelos Fleshtones e do outro a criação do psychobilly pelos ensandecidos Cramps, um grupo very trash and wild. Aí - um belo eletrochoque nos mais desavisados surgem Richard Hell e seus Voidoids, os marginais da blank generation americana.

 

À margem de todos esses, vagava a tristonha e absorta figura de Mink De Ville, um discípulo dos dias amargos de Lou Reed, dono de um possante big-rock, adornado por toques espanhóis, mórbidas baladas e velhas paixões impossíveis, tais como aquelas dos anos 50.

 

And the show must go on... New York recebe, por volta de 78, uma injeção de doses perigosas ao pop, ou seja, a invasão da música minimalista, a performance experimental de Laurie Anderson e as micro-sonoridades do erudito-minimal de Glenn Branca.

 

Uma barra tecnotranscendental vivida em formato de anti-rock, ou melhor, aquela musicalidade que renegava os cânones oficiais da ortodoxia popular, trocada por um ecletismo rebuscado, onde valia quase tudo, menos o que fosse comum.

 

A vanguarda britânica, que sempre foi esperta, aporta em Nova York trazendo, como representantes-gurus os guitarristas Fred Frith e Robert Fripp, além do frenético produtor/músico/multimídia Brian Eno.

 

Este descolou umas figurinhas e produziu o histórico LP No New York, a antologia dos renegados e anticonvencionais, cabendo destaque ao experimentalismo anacrônico do DNA, ao assuingalhado bastardo do free-jazz e neo-funk James White (o saxofonista mais kitsch do pop) e as febres enegrecidas dos Teenage Jesus & the Jerks, pilotados pela neo-Patti Smith, a junkaça Lydia Lunch.

 

Também outras realidades surgiram sob a responsabilidade do Suicide, um duo tecno-transgressivo, e de Kid Creole, um Cole Porter multifacetado capaz de unir o reggae com a salsa, a balada com a big band, o calipso com o rock e assim por diante.



Escrito por simaopessoa às 14h19
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UM CHUTE NO SACO DOS ANOS 70

 

Afinal, o que foi o punk? Você vai ter respostas diferentes conforme perguntar a um americano ou a um inglês, entre aqueles que participaram deste movimento. A resposta americana, seria qualquer coisa assim: o punk começou com os freqüentadores do clube CBGB de Nova York e as bandas que se apresentaram lá a partir de 1974 (Ramones, Television, Patti Smith, Blondie, Talking Heads...) como uma aliança entre uma multidão de kids desocupados e uma gangue de art rockers que sofriam da síndrome de Rimbaud, isto é, dos jovens poetas românticos e decadentes.

 

Os ingleses lhe dirão que Malcolm McLaren, Bernie Rhodes, Jamie Reid e mais um punhado de iluminados inventaram o punk, criaram os Pistols e o Clash do nada e saíram para as ruas, provocando o mundo com roupas esdrúxulas, cortes de cabelo absurdos, violência, xingamentos, exibindo suásticas. Também dirão que, tirando Iggy e os New York Dolls, ninguém nos States era realmente punk e sim uns babacas e (cuspe!) uns artistas. Além disso, o punk verdadeiro foi um movimento de TRABALHADORES empurrados por multidões de garotos revoltados simultaneamente com o perigo nuclear, a piada do Estado de bem-estar social e trabalhos chatos, cara!

 

Sim, sim, sim, mas o que foi, quem o fez e por quê? Basicamente foi uma aliança de conveniência entre dois bandos que tinham em comum uma vontade alucinada de erradicar para sempre o marasmo bordélico e incrivelmente chato em que o rock branco estava embrenhado.

 

De um lado havia uma turma de espertinhos (McLaren e companhia) que queria sacudir as coisas e fazer dinheiro. Achavam que a melhor maneira de fazê-lo era religar a tomada do Fator Ruptura no rock. De outro lado havia uma facção mais aguçada e explosiva em meio às bandas de pub rock pós-Dr. Feelgood, reagrupada em torno de Jake Riviera (empresário de Dr. Feelgood) e Dave Robinson (empresário de Graham Parker). Em julho de 76, os dois fundam a Stiff Records, a primeira gravadora independente da história. O primeiro compacto é lançado no mesmo mês: Nick Lowe, “Heart of The City” / “So It Goes”. Da Stiff surgiriam as bandas mais importantes da new-wave.

 

O punk foi o resultado da tensão entre os anarquistas e os fundamentalistas do rock: estes queriam que o rock’n’roll voltasse a ser uma música excitante e que valesse a pena. Aqueles queriam simplesmente destruí-lo. As duas facções se divertiram, as duas fizeram dinheiro e, no final das contas, as duas fracassaram.

 

Outro forte fator de união entre os punks (Clash, Pistols, Generation X, Stranglers, Darmned, Banshees, Buzzcocks, Understones, as brigadas de 15 minutos como Sham 69, Lurkers, Drones, Nosébleeds, etc.) e os new wavers Elvis Costello, Ian Dury, Boomtown Rats) era seu ódio consensual pelos anos 70.

 

De início, o punk representou uma oportunidade para os jovens: antes do punk, o rock era monopolizado por músicos mais velhos. O punk também permitiu que as mulheres subissem ao palco e participassem do circo, simplesmente porque todos estavam partindo de uma posição de igual incompetência (tirando aqueles que sabiam tocar, mas não confessavam, por medo de comprometer sua imagem. Nada mais engraçado do que ver o Police tentando tocar como os punks...).

 

Nessa situação, os preconceitos tradicionais não se aplicavam e as mulheres, de Chissrie Hynde a Tina Weymoulth, empunharam guitarras e baixos. Bandas como X-Ray Spex (com sua cantora lendária Poly Styrene), e as Slits, a primeira banda formada originalmente só por mulheres (Viv Albertine, Ari Upp, Palmolive e Tessa), podem não ter feito muito sucesso, mas abriram o caminho. Hoje é absolutamente normal ver uma mulher tocando rock’n’roll.

 

A música negra escolhida pelos punks foi o reggae que, ao contrário do blues, que tinha inspirado os grupos dos sixties, era tocado por negros locais, que eram contemporâneos dos punk. O punk adotou o reggae e o levou para casa. Mesmo se a morte de Bob Marley impediu que o processo fosse até o fim, os efeitos desta aliança permanecem como a terceira grande contribuição do punk.

 

E, finalmente, tem música. Sem dúvida, ficarão para a posteridade a raiva sulfurosa dos Sex Pistols, o hinos à rebelião entoados por Joe Strumner sobre os riffs metralhados por Mick Jones, o estilo de guitarra tão peculiar de Paul Weller -  líder do Jam - derivado da escola Pete Townshend/Wilko Jhonson, entre outros.

 

Para a new wave ficará a selvageria saudável de Elvis Costello e sobretudo um personagem diretamente saído de um romance de Dickens, criminosamente desconhecido no Brasil, chamado Ian Dury. Físico atrofiado pela pólio quando criança, e cockney incurável, o cantor/compositor cometeu com sua banda, os Blockheads, dois álbuns imperdíveis: New Boots And Panties (77) e Do It Yourself (79), numa fusão rara de punk e dance music.

 

Desde então o rock nunca soou tão bom, tão urgente, tão direto, tão necessário. Nenhuma banda hoje é capaz de segurar a comparação. Porque é impossível voltar atrás. Tudo o que aconteceu na música pop desde 1945 foi re-re-re-re-revivido e o punk é agora mais uma opção no guarda-roupa da cultura universal. É verdade que hoje os tempos são duros demais para que se queira enaltecer ou romanticizar a pobreza e a maioria das pessoas prefere parecer mais próspera do que realmente é.

 

O certo é que tanto o acid rock (dos hippies) como o punk procuraram mudar a maneira com que a música pop é produzida e consumida e ambos deixaram a indústria mais forte do que antes. Se um dia o pop voltar a anunciar que o negócio é subversão, deverá ser muito, mas muito convincente.



Escrito por simaopessoa às 14h18
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A NEW WAVE SAI DE NOVA YORK

 

Não foi só em nova York que brotaram as mais importantes bandas do rock americano, no apagar dos anos 70. Mais ou menos na mesma época em que apareceram os primeiros punks na Inglaterra - igualmente influenciados pelas bandas de Nova York - começaram a pipocar as mais esquisitas bandas nos mais ermos dos lugares. O vírus do vale-tudo, disseminado com o punk, corria solto, e foram surgindo mais nomes para engrossar as enciclopédias de new wave e música pop.

 

Os Residents e o Pere Ubu estão entre os ascendentes da new wave americana. Foram fortemente inspirados pelos trabalhos mais antigos - dos anos 60 - de Captam Beetheart e dos Mothers of Invention, de Frank Zappa, onde não havia limites formais.

 

Os Residents são literalmente inclassificáveis. Não se sabe, até hoje, quem e quantos são, como parecem e o que vão fazer no próximo disco, se reencarnarem. Desde 74 (!) eles vinham gravando LPs - todos lançados pelo importantíssimo selo independente Ralph Records, que mais tarde gravaria o grupo industrial Tuxedomoon - e muitos deles traziam informações falsas nos créditos, tudo para despistar a todos, chamando a atenção exclusivamente para a música deles.

 

Eles também experimentaram em outras áreas, como vídeo, performance, teatro e trilhas sonoras. A música deles tinha instrumentações estranhíssimas, muitos efeitos eletrônicos, humor e referências à musica concreta, minimalismo e, evidentemente, à música pop. Eram craques em estúdio, e estava em sintonia com os equipamentos hightech.

 

O Pere Ubu era menos ousado, mas não menos excêntrico. A música deles é livre e solta. As letras perplexas de David Thomas e os instrumentos anárquicos, cheios de ruídos, fizeram do Pere Ubu um dos precursores do rock industrial.

 

Na cidadezinha de Akron, Ohio, apareceu o Devo, formado por estudantes de arte da universidade local - aliás, as universidades americanas e suas redondezas são verdadeiros celeiros de grupos. Com seus uniformes futuristas, gestos robotizados e letras cínicas, o Devo virou um protótipo da new wave americana.

 

O mesmo aconteceu com o B-52's, de Athens, Georgia, que reviveu, com seus roquinhos despretensiosos, um monte de bobagens americanas, como cortes de cabelo e passos de dança extravagantes. Tudo em nome da diversão, energia vital do new wave.

 

De todos esses grupos, o que teve maior sucesso comercial foi o Cars, de Boston, que lançou seu primeiro LP, produzido por Roy Thomas Baker - que foi produtor do A Night at the Opera, do Queen - em 78. Liderados por Ric Ocasek, este quinteto fazia um som despretencioso, cool, com melodias delicadas em beats bem dançantes (aliás, esta é a maior característica da new wave).

 

Na costa oeste os principais representantes da new wave, foram o Oingo Boingo, um octeto bizarro com instrumentais tendendo um pouco para o jazz-rock comercial, o que fazia uma vibrante mistura de rockabilly, west-coast music e demência, produzidos em disco pelo ex-tecladista dos Doors, Ray Manzarek, e o Chrome, uma espécie de grupo industrial gótico.

 

Nesta época apareceram algumas bandas que não conseguiram, fazer sucesso nos EUA - um mercado difícil - e se mudavam para a Inglaterra, onde conseguiam gravar e despontar para o estrelato - às vezes.

 

Foi o caso dos Stray Cats, liderados por Brian Setzer. Eles se mandaram de Nova York para lançar o new-rockabilly na Europa - e se deram bem, principalmente na França.

 

Ainda mais sortudos foram os DB’s, que também saíram de Nova York para gravar em Londres. Lançaram dois LPs na Europa - e tiveram uma recepção tremendamente positiva por parte da crítica, que apontou-os como mestres na leitura e revitalização do pop psicodélico dos anos 60.



Escrito por simaopessoa às 14h16
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MORTE À NEW WAVE

 

Os punks tinham determinado as novas regras do jogo. Tinham dinamitado a ponte que durante décadas, séculos até, impediu o acesso do público ouvinte ao privilegiado palco, onde músicos redundavam cada vez mais a sua “arte”. Não, agora a orientação era outra.

 

Ninguém queria saber mais das tradicionais e castrantes aulas de música. Ninguém mais poderia limitar os territórios a serem explorados. Sem pré-requisitos, sem maiores conhecimentos musicais, apenas movido pela vontade de tocar e criar, despertada pelas mais variadas razões, qualquer um poderia ser músico.

 

Para o rock, o punk tinha sido algo como um anticristo, que passou rapidamente pela terra, deixando um crescente contingente de seguidores ou admiradores de sua ideologia iconoclasta.

 

Em seguida, enveredando pelos, mais variados caminhos, ocupando e explorando os mais virgens territórios, seguiam os jovens de cabeça feita em busca de aventura e experiências excitantes.

 

É este, mais ou menos, o espírito reinante em 78 quando é decretada a morte do movimento punk, um ano após o seu nascimento. Este novo momento, em que dezenas de bandas saem por rumos totalmente opostos e diferentes, só pode ser chamado de pós-punk, uma continuidade da new-wave e sua última grande fase fértil.

 

Evidentemente, havia dentre as bandas que começaram no punk algumas poucas que foram capazes de entender perfeitamente a situação e de acompanhar o novo processo de constantes transformações.

 

Foi o caso dos Stranglers (banda mais duradoura dessas todas, que conseguiu completar 15 anos de atividade, com a mesma formação), do Wire (mestres na experimentação e depois especializados em samplers), Siouxie & The Banshees (da vocalista Siouxie, a versão gótica da Patti Smith), Clash (que enveredou pelo reggae e funk) e o Jam (depois de mod, veio o flerte com o soul e a Motown, e deu no Style Council).

 

Das bandas que se consagraram um pouco mais tarde, a partir de 78, as mais importantes e influenciadoras seguem em ordem alfabética:

 

A CERTAIN RATIO

Banda de Manchester, formada em 77. No início, eram três rapazes. Com a entrada do baterista Donald Johnson, eles passaram a se interessar por ritmos latinos e funk. A mistura deles era “quente”: ritmos trabalhados, guitarras e vozes dissonantes, acordes esparsos, melodias discretas - quase inexistentes. O álbum Sextet (81) dá uma boa noção de como soa esta salada.

  

BIRTHDAY PARTY

Grupo australiano liderado por Nick Cave. Eles se deram bem quando se mandaram por conta própria para a Inglaterra. A tônica deles era o barulho, zumbido, zoeira, demência total - tudo isso ancorado nos sincopados andamentos do baixo e da bateria. Uma grande banda que acabou no momento certo: de suas cinzas, nasceram o Nick Cave & the Bad Seeds e o Crime & the City Solution.

 

CURE

O que os diferenciava era a ênfase na guitarra rítmica de Robert Smith e sua voz lamuriosa (na foto lá em cima, ele é o que mais tem pinta de boiola...). O pique de garage band - acentuado pelos ágeis beats da guitarra - também ajudava. Depois entraram numa fase meio depressiva, onde criaram belos climas pesados, bem densos. Foram mais influentes nessa fase - onde começavam a usar teclados. O LP Seventeen Seconds, pouco conhecido por aqui, é o disco-chave desta concepção.

 

DEXYS MIDNIGHT RUNNERS

O primeiro LP deste - originalmente - octeto foi um dos pioneiros na exploração pós-punk da soul music americana. O segundo LP é totalmente diferente nas referências - atacam de folk music irlandesa -, sem perder o embalo contagiante do anterior. O responsável pelas tomadas resolutas de direções opostas era o líder do grupo, Kevin Rowland.

 

DURUTTI COLUMN

Era um grupo de uma pessoa só: o guitarrista/pianista/cantor Vini Reilly. A exemplo do Joy Division, o grupo é de Manchester e foi um dos primeiros a entrar nos planos da gravadora Factory. Seus discos têm diferenças nas condições de gravação (um foi gravado num porta-studio, outro em Portugal, outro ao vivo etc.) e instrumentação (o baterista Bruce Mitchell participa a partir do segundo LP, sax e sopros entram nos últimos), mas as composições e texturas criadas pela guitarra melódica de Reilly apontam em direções difíceis de definir - é melhor nem se atrever, para não cometer besteiras como falar em “new age music”.

 

ECHO & THE BUNNYMEN

Quando vieram ao Brasil, não deixaram dúvidas sobre suas preferências musicais e sobre as áreas que exploravam. O negócio deles era west-coast - Byrds, Doors e Love -, bandas de Nova York - Television, Velvet Underground - e as fases mais psicodélicas de Beatles e Pink Floyd. As guitarras esparsas e viajantes de Will Sargeant e os vocais e letras depressivas/debochadas de Ian McCullogh são marcas registradas. São pioneiros do neopsicodelismo.

 

FALL

Mais um de Manchester. O Fall começou em 77, sempre liderado pelo cantor/letrista Mark E. Smith. O grupo foi várias vezes comparado ao Velvet Underground, pela sua lassidão instrumental - parece que ninguém sabia tocar seus instrumentos - e pela compensação em ruídos e distorções. As letras do Smith são um caso à parte - ele brinca, inverte, dá novas formas e conteúdos à língua inglesa, criando imagens totalmente inusitadas ou sem significado. Lançaram mais de quinze LPs.

 

GANG OF FOUR

Uma das mais influentes bandas do pós-punk, principalmente pela consistente exploração de ritmos sincopados e pela utilização da guitarra distorcida, pesada, como instrumento rítmico. No seu primeiro LP - o importantíssimo Entertainment - eles soam rápidos, secos, na mais pura concepção punk. Só que apontam - com brilho - para os caminhos que viriam a culminar no disco-funk, a partir do 3º LP, "Songs from the Free".

 

JOE JACKSON

Eis aí um dos grandes precursores do new-pop. Jackson sempre fez canções bem pop, sem maiores inovações, e sempre se referenciou em ritmos dançantes, “pra cima”, sem no entanto cair no vulgar. Mais tarde, começou a flertar com o jazz, ritmos latinos, chachachá e por aí afora.

 

JOY DIVISION

O romantismo na versão energética e apaixonada, que só mesmo o punk poderia materializar. Os vocais agonizantes do suicida Ian Curtis e os instrumentos gélidos e raçudos do pessoal que mais tarde formaria o New Order modificaram os conceitos da época. Em 80, pouco depois da morte de Curtis, lançaram "Closer", um clássico, um disco tão influente que deixou até marcas no rock nacional (leia-se Legião Urbana).

 

KILLING JOKE

Eles começaram fortemente influenciados por ritmos jamaicanos, e depois entraram de cabeça na fase hard, para se tornar um dos grupos mais pesados da época. Não chegam a ser heavy metal, por causa de alguns elementos largamente explorados no pós-punk: bateria tribal, baixo sincopado meio funky e a quase ausência de solos e melodias, formando uma massa bem dissonante.

 

LEAGUE OF GENTLEMEN

Tentativa de Robert Fripp (guitarrista/líder do King Crimson) de formar uma banda com um som “dançante”, bem influenciado pelas bandas americanas. O resultado era único: imaginem as concepções minimais-experimentais dos Frippertronics (adaptações montadas com séries eletrônicas, pedais, seqüenciadores), os teclados esquisitos de Barry Andrews (ex-XTC, mais tarde no Shriekback), tudo isso ancorado nos beats dançantes montados por Sarah Lee (baixista, depois no Gang of Four) e Johnny Toobad (baterista). Lançaram só um LP, em 81, e depois e grupo acabou.



Escrito por simaopessoa às 14h15
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OUTRAS BANDAS DA NOVA ONDA

 

MAGAZINE

Grupo de heavy pop, fundado pelo ex-vocalista dos Buzzcocks, Howard Devoto, Barry Adamson (baixo), John McGeogh (guitarra), John Doyle (bateria) e Dave Formula (teclados). Todos eles acabariam envolvidos em outros projetos posteriores porque eram excelentes músicos - como Visage, Siouxsie, Bad Seeds e Armoury Show. O excelente LP Time Correct Use Of Soap foi produzido por Martin Hannett, o produtor do Joy Division.

 

PIL

Antigrupo formado por John Lydon, depois que ele saiu dos Sex Pistols e declarou que o punk estava morto. Com Jah Wobble (baixista, ex-motorista de táxi), Keith Levene (excelente e criativo guitarrista) e um Walker (baterista), o Public Image Limited mantinha a agressividade e energia dos Pistols, só que voltado para um lado mais dissonante e denso. A inserção do grupo no mercado foi de uma abordagem conceitual brilhante. O primeiro LP chama-se First Issue (primeira edição), e remete a capas de revistas famosas. O segundo LP, Metal Box, foi originalmente lançado como caixa de metal que reunia compactões e depois virou um álbum duplo com outro título, Second Edition (Segunda Edição).

 

POLICE

Stewart Copeland, Sting e Andy Summers, três músicos veteranos, resolveram se unir em 77 para aproveitar a onda do reggae e da experimentação. Mesclaram padrões roqueiros com o ritmo mais popular da Jamaica, e conseguiram um resultado pesado e original, o que agradou a um grande contingente de curtidores dos mais variados gêneros, inclusive os progressivos (os três são músicos excelentes). Pelo seu potencial comercial, estiveram entre os primeiros grupos lançados no Brasil, anos mais tarde, como banda “new wave”.

 

POP GROUP

Banda de curta duração, formada em Bristol. Suas músicas quase não tinham estrutura definida, lembrando os padrões rítmicos do Captam Beefheart, onde não havia andamento fixo. Os vocais apocalípticos de Mark Stewart, pianos e saxofones anárquicos e baixos bem pontuados são as principais características do grupo. Depois que eles acabaram, em 80, seus ex-integrantes formaram outras bandas importantes, como o Pigbag e o Rip Rig & Panic.

 

PRETENDERS

A americana Chrissie Hynde montou uma banda inglesa de título irônico: Os Fingidos (The Pretenders). No início, apesar de alguns hits mais leves, faziam um som pesado e contagiante repleto de qualidades únicas como o vocal afinado e vigoroso de Chrissie, as guitarras cortantes do falecido um Honeyman-Scott e as baterias de Martin Chambers (da escola de John Bonham). Os dois primeiros LPs deles são fundamentais.

 

PSYCHEDELIC FURS

Velvet Underground e David Bowie eram as grandes influências deles. O cantor Richard Butler, com sua voz rouca, realmente lembra Bowie e Lou Reed, mas a massa de guitarras está mais para o wall of sound de Phil Spector.

 

SIMPLE MINDS

O primeiro LP deles saiu em 79. Lembravam fortemente o Roxy Music, com seus teclados espaciais e dispersos, em canções bem pop. Depois, iniciaram uma interessante trajetória de experimentações e lançaram belíssimos discos, com ênfase nos instrumentais diferentes, meio progressivos, meio tecnopop. O método de trabalho de Jim Kerr (vocais), Charles Burchill (guitarras), Mike McNeil (teclados), Derek Forbess (baixo) e Brian McGhee (bateria) reflete nas elaboradas melodias: gravam horas de jam sessions em ensaios, ouvem os tapes e selecionam os melhores momentos para montar uma composição.

 

TEARDROP EXPLODES

Juntamente com o Echo & the Bunnymen, este foi um dos grupos que melhor soube “ler” a west-coast music, psicodelismo e James Brown (quando este ainda estava inventando o soul). O cérebro de tudo isso foi o cantor/guitarrista Julian Cope, que iniciou carreira solo depois do segundo LP do Teardrop Explodes.

 

U2

O LP de estréia desta banda de Dublin revelou ao mundo um grupo novo que esbanjava vigor, peso e, ao mesmo tempo, um sensível senso melódico. Bono e Edge são os principais responsáveis pela façanha, a de equilibrar o pueril exibicionismo de fé e paixão das letras e da postura deles com as vigorosas interpretações vocais e instrumentais, sustentadas nos harmônicos das guitarras e na cozinha precisa e eficiente de Larry e Adam Clayton. Influências do U2: música irlandesa, Scott Walker, Television, Clash e Sex Pistols.

 

XIC

Grupo de craques em arranjos e conceitos de produção de estúdio. Nunca se deram muito bem ao vivo, e até abriram mão deste expediente. Andy Patridge (guitarras) e Colin Moulding (baixo) se revezam nos vocais e autorias das composições. Começaram em 77, e em 78 lançavam o primeiro LP. White Music, com rockinhos rápidos - bem feitos - sem maiores pretensões. Depois, a cada lançamento um disco, passaram a esbanjar uma rara sensibilidade nos arranjos, principalmente nos vocais lembrando as melhores coisas dos Beatles e de outros grupos antigos -, nos timbres e sobreposições de guitarras, entradas e saídas de efeitos, tudo em nome do peso e da diversificação. O LP Black Sea (80) é o exemplo clássico - antes deles começarem a se ligar em folk inglês, temas orientais e outras referências bucólicas.

 

Todas estas bandas apontaram caminhos. E mais ou menos a partir de 79/80 que algumas delas começam a se repetir ou a serem imitadas. O espírito de inovação, de exploração e busca de experiências não mais predomina.

 

As “brasas do pós-punk” agora estavam começando a se apagar, para dar lugar a uma febre leve, alienada, enfeitada com cores, gestos, passos de dança, compromissada apenas com o balanço ritmado das ancas e dos topetes projetados sob cortes bem curtinhos. Chegou a new wave que o resto do mundo viria a conhecer, apenas em seu formato comercial, criado artificialmente para as pistas de dança. 

 

Usurpando o nome que tinha sido dado para abranger os trabalhos que, contando com a energia do punk e com o espírito de combate às redundâncias do rock progressivo em nome da vibração e da simplicidade do rock’n’roll -, as gravadoras e grupos mais espertos se infiltravam no mercado internacional como integrantes do “movimento new wave”.

       

Foi assim que nós, no Brasil, tomamos contato com a “new wave”, oficialmente, bem numa época em que a verdadeira new wave - aquela que surgiu antes do punk, em Nova York, e depois seguiu paralelamente ao punk para se extinguir juntamente com o pós-punk - já tinha acabado.

 

O que nós conhecemos - os trabalhos já repetitivos do Devo, B-52´s, Police, Cars, Talkine Heads, Nina Hagen, Ou Go's, Gary Numan etc, etc... -, estava longe de representar o que houve de importante e influente na produção musical da década de 80, onde as gravadoras independentes proliferavam e nós passávamos pelo velho problema do atraso, medo e não aceitação das novidades pelas nossas gravadoras e mídia.

 

Resta lembrar que, no fim do pós-punk, começaram a surgir alguns gêneros característicos - todos descendentes da new wave -, mas que tiveram uma certa participação na configuração do rock atual, o que incluiu o tecnopop, o new romantic, o two tone, o gótico, o new pop e o industrial. Mais sobre cada um deles a seguir.



Escrito por simaopessoa às 14h13
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OS SINTETIZADORES ENTRAM NA DANÇA

 

Quase no final dos anos 60 nascia o primeiro puro produto de síntese musical. De uma proveta não identificada escapava um pequeno compacto intitulado “Pop Corn”, musiquinha chatinha e descartável. E só.

 

Depois, foi preciso esperar até 1979. Naquele ano, as brasas do pós-punk já estavam se alastrando. A influência da Kraftwerk começava a se fazer sentir enquanto o Joy Division assinava o manifesto frio dos anos que estavam por vir.

 

Na Europa, começam a surgir aqui e lá grupinhos seguidores das experimentações de Brian Eno e David Bowie, que se reuniam em volta de um sintetizador, agora um instrumento mais barato e mais acessível.

 

Todos estavam fascinados por duas inovações: a primeira era a possibilidade de programar seqüências inteiras de notas, extraindo da engenhoca fraseados rítmicos usados como linhas de baixo.

 

A segunda era a possibilidade de se programar o andamento inteiro da música através de ritmos eletrônicos - que ameaçavam tirar o emprego de muitos bateristas por aí.

 

Na verdade, estes instrumentos eram vistos como trampolins para novos experimentos e abriam horizontes para a renovação do rock.

 

Filho do Kraftwerk e de Giorgio Moroder (o criador da disco music), o tecnopop se constituiu de seis grupos fundamentais.

 

Fundado pelos analistas de sistemas Lan Craig Marsh Martyn Ware em 1979, o Human League (na foto acima) admite Phil Oakey, ex- enfermeiro, como cantor. Após dois álbuns injustamente ignorados (Reproduction, de 79, e Traveloque, de 80),o sucesso só aconteceu depois da partida do fundadores e da chegada das loiras geladas Joanne e Suzanne para o LP Dare, grande clássico da tecno disco. Human League é um dos grupos que mais trocou de pessoal - de três integrantes a doze, com variações intermediárias.

 

Marsh e Ware fundaram o Heaven 17, recrutando Glenn Gregory para segurar o microfone. Com seus ternos Giargio Armani e seus sorrisos rutilantes, os três músicos são a versão yuppie do gênero. Se especializaram na confecção de compactos de sucesso, pérolas de funk chic e leve, cujas letras - coisa rara - são particularmente bem feitas. A dupla também fundou em paralelo o B.E.F. (British Electric Foundation) para realizar trabalhos conceituais e experimentais.

 

Outra banda farol do tecnopop é o Depeche Mode (na foto abaixo), em que se destacam Martin Gore (o cérebro) e David Gahan (o vocalista). Nascidos no meio do movimento new romantic, provaram desde seu primeiro LP, Speak and Spell, de 81, que eram capazes de compor pequenas maravilhas de tecnopop baseadas em fórmulas simples.

 

Formado pela dupla Marc Almond e David Ball, o Soft Cell durou dois anos e três álbuns geniais, marcados pelo fascínio do sexo mórbido. Enquanto David foi produzir o Vicious Pink, Marc iniciou uma carreira solo não muito bem-sucedida e continuou cantando a vida das putas, os cabarés de travestis e os mictórios públicos.

 

Combinando o sintetizador com uma música pop absolutamente direta e dançável, o Ultravox é considerado o primeiro grupo a ter aberto o caminho do eletropop e do movimento new romantic. Seus três primeiros LPs, Ultravox!, Ha! Ha! Ha! e Systems of Romance (o primeiro co-produzido por Brian Ruo e Steve Lilywhite, o terceiro pelo legendário Connie Plank) são obras-primas do gênero.

 

Yazoo é um duo mítico, composto por Vince Clarke e Alison Moyet. Tão fulgurante quanto o Soft Cell, deixou a mesma saudade. O primeiro álbum do Yazoo, Upstairs at Eric’s (de 82), meio rock, meio delírio, os lança com a faixa Don’t Go no caminho do segundo (e último), com título trágico e capa premonitória, You and Me Both, dois dálmatas lutando na neve.

       

Yello é um trio, depois duo suíço que curtia os trópicos (bananas, macacos, vudu e companhia). Sua produção era enorme. Muito experimentalistas no início, mestres da colagem sonora, mais harmoniosos que Art of Noise, se lançaram depois na dance music e nas habaneras sintetizadas. Na época, Dieter Meier (vocal) nunca sabia qual seria o andamento das músicas que Boris Blank (teclado e máquinas) compunha no maior segredo. Piração pura.

 

Vale citar ainda alguns nomes de menor importância, mas de grande influência, como Gary Numan, O.M.D. (Orchestral Manouevres in the Dark) e Thomas Dolby.

 



Escrito por simaopessoa às 14h03
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OS DÂNDIS FUTURISTAS

 

Em meio a tantas (re)invenções surgidas no pós-punk, uma delas fez história, tornando-se bem-sucedida, principalmente em países mais “fáceis” como o Brasil, pois era uma sonoridade de sistema, feita para ser consumida pelos integrantes do sistema (kids e cocotas da classe média).

 

A corrente se chamava de new romantic, mas também admitia o título de futurista. Do que se tratava? Acima de tudo, da vitória do artifício sobre a substância, do visual sobre a essência e da máquina sobre o homem.

 

Iniciada em 78 pelos neo-dandys voyeurs de luxo, tendo David Bowie como ídolo máximo, como bases as escolas da cold-wave (notoriamente Gary Numan) e do tecnopop (Human League era a peça-chave), este movimento, na verdade, foi uma das maiores frivolidades já vividas pelo pop.

 

Assim o Visage desfila o seu glamour sobre uma musicalidade computacional, à beira de unihipnotismo cibernético. O Classix Nouveaux deleita-se com a artificialidade do pop. O Duran Duran (na foto lá em cima) instala o funk como preservativo aos seus clichês tecnocráticos. O Culture Club (na foto aí embaixo) reinstaura as fulgurantes concepções de androginia nascidas no glitter rock. Adam & the Ants rebusca a fantasia, aliado a convenientes moldes de punk rock e o Spandau Ballet combate a pobreza com sua elegância narcisista.

 

Outros grupos como Japan e o Bow Wow Wow, que pouco ou nada tinham a ver com os futuristas também foram incluídos na onda. Uma pena, pois e primeiro era um genial pop-experimentalista e o segundo, o melhor exemplo dançante do neo-bubblegum.

 

Por obra e graça de DJs antenados, o new romantic se transmutaria no techno e os neo-dândis se converteriam em clubbers. A música pop não poupa ninguém.

 



Escrito por simaopessoa às 14h00
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A MARCHA DOS ANJOS NEGROS

 

A grande influência sobre os góticos (os avôs dos emos) foi mesmo a literatura gótica, desenvolvida no final do século XIV com os contos fantásticos dos discípulos europeus de Edgar Allan Poe - gente como o escritor alemão E.T. Hoffmann. São as histórias de terror, paranóias e insanidades, presentes em todos os momentos mais românticos da história.

 

Evidentemente, depois do punk e, principalmente, depois de Siouxsie & the Banshes, haviam aqueles que encontram a maneira ideal de expressar os seus horrores e fascinação mórbidas (pela morte por estupro, por exemplo).

 

A base perfeita - descoberta pela primeira formação dos Banches - era simples: guitarras distorcidas, harmonias complementares dissonantes, repetições, baterias tribais - tudo em nome do mau gosto, do barulho, da satisfação plena com a antimelodia.

 

Até que algumas góticas não soavam tão mal assim. Com injeções de teatralidade bowieana e utilização de melodias simples, havia bandas que soavam vigorosamente e estimulantes.

 

Foi o caso do Bauhaus, banda gótica mais famosas de todas. Eles foram responsáveis pela larga difusão do fascínio pelas trevas. O nome da banda era uma referência à fundação da Bauhaus - Escola de Arquitetura e Desenho Industrial na Alemanha, fechada pelos nazistas em 1933.

 

A banda surgiu em 1978 em Northampton, na Inglaterra. Os irmãos David Jay (baixista e vocalista) e Kevin Haskins (baterista) criaram o The Craze, grupo que se aproximava do punk rock.

 

Eles chamaram mais dois músicos, Daniel Ash e Dave Exton e realizaram a primeira apresentação na cidade. Mas a formação completa veio um pouco depois, com a entrada de Peter Murphy, um ex-colega de escola de Daniel. Peter entrou como vocalista principal sem nunca ter cantado em outra banda.

Com um ano de vida, a banda gravou o primeiro single, pela Small Wonder, “Bela Lugosi’s Dead”. São quase dez minutos de música sobre a morte do ator Bela Lugosi em 1956, que se tornou conhecido após sua interpretação de Drácula no filme de 1931.

 

A capa do single trazia o cartaz do filme e na contracapa foi colocada uma cena de “O Gabinete do Doutor Caligari”, um marco no cinema expressionismo alemão, lançado curiosamente em 1919. Cinco anos depois, o Bauhaus implodia.

 

Os góticos mais radicais mesmo apareceram mais tarde, quanto o Bauhaus estava perto do seu fim.

 

O Alien Sex Fiend (abaixo), Meat of Youth, The Specimen, Sex Gang Children, Flesh for Lulu, e - mais tarde - Augang, Bomb Party e os Inca Babies, são os grupos que consolidaram o gênero, que seria "redescoberto" muitos anos depois e ganharia o rótulo de "emocore".

 



Escrito por simaopessoa às 13h58
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O SWING SKANDALOSO

 

 

O preto e o branco. Dois distintos tons de cor. Two Tones. Uma expressão que, aportuguesada, atende pelo nome tutônico. Terninhos e gravatas próximos à linha mod. Cabelinhos muito curtos com trejeitos dos anos 30. Letras pregando os alvoroços do cotidiano, desbancando a segregação racial e cuspindo farpas no poder.

 

Tudo começou quando os skinheads ingleses adotaram o ska - um pop jamaicano, ancestral do reggae - como música preferida. Só que a consciência punk predominante era anti-racista e imediatamente começaram a surgir bandas, algumas integradas de negros e brancos, fazendo revival do ska com caráter político.

 

As primeiras movimentações skazaladas ocorreram em 77, com dois grupos pioneiros, o Madness e os Specials, que aparecem na foto de cima para baixo.

 

O primeiro, possesso de bom humor com um swing skandaloso, adotou, ao lado de suas melodias sedutoras, doses de rumba, blues, big-band, rock’n’roll e muitos porres de folclore latino.

 

O segundo, de onde saíram o tecladista/vocalista Jerry Dammers (mais tarde no Special AKA) e o poeta/vocalista Terry Hall (Fun Boy Three e Colourfield), era realmente do primeiro skalão.

 

Ambos renovaram skandalosamente a linguagem do pop com uma pulsação frenética baseada no reggae, nas altas temperaturas do calipso e numa idiossincrática tessitura de rock.

 

Depois vieram muitos outros, sendo que alguns, como o atordoado Selecter, o vigoroso Beat e o gostoso Bodysnatchers, foram mais representativos.

 

Outros grupos como o Police, Slits e Pigbag, também gostaram do skândalo e passaram a skazalar algumas de suas composições, sendo que, até hoje, a malícia tutônica persiste nos fiéis amantes do ritmo.



Escrito por simaopessoa às 13h53
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LUXO EM NOVO FORMATO

 

Claro, o pop é muito safado e demasiadamente inteligente. Ele se recicla ou se traveste com uma facilidade impressionante. É por isso que é pop, um produto de velhas origens e sempre de novas direções. É dessa fonte mágica que se descolam os vínculos mais descartáveis e maravilhosos da música moderna.

 

Entre os que resolveram transformar o pop, dando-lhe uma forma mais substancial e refinada, certos nomes são decisivos. O precursor mais sofisticado foi o grupo escocês Orange Juice, que, ainda em 78, resolveu mixar sombras do punk com as sonoridades mais românticas dos anos 60, temperadas pela mágica influência de Bowie e gotículas de funk e jazz.

 

De Leeds, surge um outro grande inovador, o prolixo Scritti Politti (abaixo), um dos mais contundentes mergulhos na soul music, em piscinas funkóides e jazzísticas.

 

 

De Sheffield, vem o ABC, estabelecendo através de fantasmagorias bowieanas, uma novíssima linguagem para o funk que desaguaria na disco music.

 

A Escócia também enviou os Altered Images, uma das melhores banda do umbrais dos 80. A voz fininha, frágil e doce de Clare Grogan (a fadinha mais encantadora do pop) e a mastigável sonoridade pop-funk-bubblegum da banda foi um dos melhores ensaios assistidos na tela do neo-pop.

 

Mas há muitos outros transformistas, também responsáveis pelos novos ambientes onde o pop se assentou, sem maiores cerimônias. Apenas como menção vale lembrar o suposto neo-Blondie, americano The Motels, os divertidos australianos do Kissing the Pink, a gostosura americana surf-fresh-rock das Go Go’s, o funk poético do Haircut 100, a skazalada diversão rockmântica do Fun Boy Three e o luxuoso high-tech do China Crisis.



Escrito por simaopessoa às 13h51
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O RUÍDO DOS TEMPOS

 

A primeira vez que a imprensa inglesa batizou um estilo de industrial foi a respeito do primeiro 12” do grupo americano Pere Ubu (essa galera aí acima), em 78. Se fosse uma pizza, o som deles seria mezzo Captain Beefheart mezzo Walt Disney, com cobertura white noise.

 

Em seu primeiro trabalho, a galera do Pere Ubu apresenta o homem como um ser completamente inseguro nesse mundo pós-industrial, que não consegue nem entender nem crer em nada. O sentido de realidade é fragilizado, ao mesmo tempo em que ele se acha encantado e horrorizado com a barbárie reinante. Mas a matéria-prima do som industrial é a luta contra a ameaça da psicose num mundo que já se tomou psicótico.

 

 

Do mesmo ano do Pere Ubu é o primeiro disco do Cabaret Voltaire (acima), dando uma forma mais característica ao som industrial. É o som ambiental para se mergulhar nos pesadelos dos nossos tempos. É um disco altamente arrasador, que transa tanto barulho puro quanto música.

 

Depois apareceu o Throbbing Gristle com um selo próprio e o SPK da Austrália que seguem uma linha paralela à do Cabaret Voltaire.

 

A Alemanha enveredou pela vertente industrial a partir de 79 com grupos como Der Plan e DAF, tornando-se muito rica no estilo.

 

Dos Estados Unidos vieram o Tuxedomoon (industrial de câmara), Boyd Rice’s Non (barulho puro) e os solistas Zev (trabalha só com objetos metálicos) e Diamanda Galas (entre outras coisas, a voz definitiva do industrial).

 

Em 80, na Inglaterra, Graham Lewis e Bruce Gilbert inauguravam o Wire, abrindo espaço para a free association, onde a música se definia no próprio processo da composição. O 23 Skidoo também agitava nessa linha.

 

A música industrial atingiu um peso e um impacto maior com o Einstürzende Neubauten, que faz música só de objetos não musicais amplificados ou distorcendo instrumentos tradicionais.

 

Além dos já citados, vale mencionar Test Department, Severed Heads, Mark Stewart & the Maffia, Psychic TV - continuação do Throbbing Gristle -, Laibach e Coil.



Escrito por simaopessoa às 13h49
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Jodorowsky revisita o Incal

 

Por Claudio Yuge

 

O que é o Incal? Bem, pela própria definição dos criadores é algo que representa a dupla natureza da realidade incorporada na forma de duas pirâmides, o Incal Negro e o Incal Luminoso. Algo referente à dualidade do conflito básico de todas as coisas, como herói/covarde, luz/escuridão e etc. E Incal também é uma das obras mais importantes no gênero da ficção científica em quadrinhos. Os leitores brasileiros podem se aprofundar um pouco mais nesse universo em ''Antes do Incal - Volume Um'', lançado pela Devir Livraria.

Criado em 1981 pelo cineasta e quadrinista chileno Alejandro Jodorowsky e pelo ilustrador francês Moebius, Incal virou referência no que viria a ser a vertente cyberpunk da ficção científica. Um universo novo, cheio de possibilidades, com um personagem carismático, John Difool, em uma história de intriga e aventura, com boa dose de crítica à política e sociedade ''real''.

A exemplo do processo de criação de ''A Garagem Hermética'', de Moebius, os autores estabeleceram um ponto de partida mas não de chegada e muito do desenrolar da história foi ''feito na hora'', a partir de improvisação e, claro, talento de Jodorowsky e Moebius. Isso deu um ar ainda maior de imprevisibilidade e frescor à obra, sempre atual, mesmo mais de 25 anos depois.

A série, depois de influenciar inúmeros artistas ao redor do globo - especialmente os fãs da linha de ficção científica no rastro da Metal Hurlánt (ou Heavy Metal) - só acabou em 88 e, após o término, muita gente ainda ficou com vontade de ver mais sobre o Incal.

Assim, Jodorowsky resolveu revisitar seu mundo, só que desta vez sem a companhia de Moebius. Em seu lugar, entrou o não menos competente iugoslavo Zoran Janjetov, que chega a ser confundido com o francês de tão parecido que são os traços de ambos.

Em ''Antes do Incal - Volume Um'' a dupla explora um pouco da origem de John Difool e a construção da personalidade daquele que viria a ser o homem capaz de alteral a realidade em um futuro próximo. Se você gosta de cyberpunk, não vai se decepcionar.



Escrito por simaopessoa às 15h38
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“Eu não digo mais que tenho um discurso”, diz Mano Brown

 

 

Do G1, em São Paulo

 

Em entrevista na noite desta segunda-feira (24), o rapper Mano Brown falou de seu papel à frente dos Racionais MCs e se distanciou em diversos momentos da imagem discursiva à qual sempre foi associada. "Eu não sou exemplo", "Racionais é a voz de um", "opino como um cidadão", "eu não digo mais que tenho um discurso" foram algumas das frases que usou para comentar o peso da influência da maior banda de rap do Brasil e suas letras sobre a periferia e o comportamento dos fãs.

Em rara aparição na TV, Mano Brown foi entrevistado ao vivo no programa Roda Viva, da TV Cultura, por uma bancada que questionou o rapper a respeito de posições políticas, opiniões sobre o Governo Lula, religião, a chegada de sua música até as classes mais altas e a influência do tráfico sobre a favela.

O cantor afirmou que "é um cara livre" e que hoje "opina como um cidadão". "As pessoas não podem achar que eu estou cativando um exército", disse, em pouco mais de uma hora e meia de participação.

Declarou também que não acredita que o hip hop precisa ser exclusivamente para falar de problemas sociais. "Não estou mais na fase de usar o rap para ser só social. O cara tem que ser livre, falar de seus problemas. Não pode jogar um fardo de 200 quilos sobre o que uma pessoa vai falar. O rap é lutar pela vida de cada um".

Conhecido pela resistência ao contato com a mídia, Mano Brown não foi confrontativo no programa e até chegou a cobrar perguntas mais duras dos entrevistadores. "Tá suave até agora. Tô até estranhando", afirmou, dizendo que costumava ver convidados no programa "tomarem pancada de todo lado".

Quando os escândalos do governo Lula foram mencionados e questionada sua adesão ao presidente, o rapper se manteve firme no apoio. "Gosto do Lula, sou eleitor do Lula, apóio ele". E falou sobre a responsabilidade do presidente sobre o fato de casos de corrupção atingirem seus aliados. "Ele não vai entregar o amigo que deu mancada. Agora, se [outros] pegarem, é pau no gato".

A respeito da existência de ouvintes dos Racionais na classe média, afirmou que os mais ricos precisam voltar a atenção para além de seu grupo. "Eles têm que entender o que fala o porteiro, o jardineiro; vai ter que conviver com os motoboys. Racionais é a voz de um. Tem muita coisa além e tem que se informar para sobreviver", declarou. "Tem outros movimentos que os 'playboys' curtiram, mas nem por isso beneficiou a gente."

Mano Brown não deixou de criticar a violência policial e disse que o termo mais apropriado para traficante é 'comerciante'. Questionou a legalidade do álcool ao mesmo tempo que se recusou a criticar os usuários de drogas. "Eu não sou ninguém para falar. Quem sabe como é estar no beco dos tristes? Amanhã pode ser você. Por que vocês insistem que só existe o outro caminho?", declarou, dizendo que é favor de que "o cara não precise de nada para mexer com a mente".

Quando abordou suas influências musicais, Mano Brown citou Jorge Ben, Tim Maia, Gilberto Gil, além de nomes da música black brasileira como Cassiano e Bebeto.

O cantor falou que segue uma igreja evangélica, mas disse não aprovar a perseguição de alguns cultos ao candomblé. "Os crentes também erram. Jesus não pregava isso."

"As contradições só acabam quando uma pessoa morre. Sou o mais confuso dos quatro [Racionais]", afirmou, próximo do final do programa.

Participaram da entrevista os jornalistas Paulo Lima (revista Trip), Ricardo Franca Cruz (revista Rolling Stone), José Nêumanne (Jornal da Tarde), Renato Lombardi (TV Cultura), o escritor Paulo Lins e a psicanalista Maria Rita Kehl. A mediação foi de Paulo Markun.



Escrito por simaopessoa às 14h35
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